Devemos oferecer a face a quem nos fere?

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No último artigo, disse que há vários conceitos que muita gente supõe que tenham surgido no Cristianismo mas que, na realidade, são bem mais antigos do que o mesmo. Como a Bíblia Hebraica é extensa, muitas vezes essas coisas podem passar desapercebidas.

Um desses ensinamentos é o de oferecer a face a alguém que nos fere. Muitos monoteístas ficam ficam até constrangidos, sem saber o que responder quando alguém sugere isso. Não deveriam, como veremos neste artigo.

Geralmente, a ideia é atribuída a uma fala de Jesus no chamado Novo Testamento, com muita gente pensando se tratar de um ensinamento inovador. Mas, não é isso que acontece. Na verdade, a ideia vem da Bíblia Hebraica e é muito anterior ao Cristianismo.

A situação aparece em duas passagens, abaixo indicadas:

“Dê a sua face ao que o fere; engula a desonra. ” (Lm. 3:30)

Essa primeira foi escrita por Jeremias, quando do exílio Babilônio, mais de seiscentos anos antes de seu uso por parte do Cristianismo.

Seu contexto é o sofrimento dos judeus durante a destruição do Reino de Judá e o exílio para a Babilônia. O profeta os consola, dizendo que a resposta não estava em se levantarem com violência, mas acatarem a punição pelos pecados e esperarem a resposta do Senhor.

Ao contrário do que pode parecer, o profeta esperava sim uma retribuição, mas ela viria do Senhor: “Tu lhes darás recompensa, Eterno, conforme a obra das suas mãos.” (Lm. 3:64)

“Ofereci minhas costas para aqueles que me batiam, minha face àqueles que arrancavam minha barba; não escondi a face da zombaria e da cuspida.” (Is. 50:6)

Neste segundo texto, Isaías fala sobre o remanescente de Judá, que sofria com a punição do exílio, mesmo tendo se mantido fiel ao Senhor.

Novamente, a retribuição vem do Senhor: “Eis que o Senhor Eterno me ajuda; quem há que me condene? Eis que todos eles como roupas se envelhecerão, e a traça os comerá.” (Is. 50:9)

Nos dois casos, o ensinamento é o seguinte: Se você tem sido ferido injustamente, não fique tramando vingança. Confie que o Senhor irá fazer a Sua justiça no tempo certo.

Este é o ensinamento que o Senhor deu a Moisés deixou, quando disse: “A mim pertence a vingança e a retribuição. No devido tempo os pés deles escorregarão; o dia da sua desgraça está chegando e o seu próprio destino se apressa sobre eles.” (Dt. 32:35)

E por que se usa figurativamente a “face” para transmitir essa ideia? A resposta é que bater na face era uma expressão idiomática para envergonhar ou humilhar alguém.

Observe o que Jó diz sobre sua humilhação: “Abrem a boca para me devorar; batem-me na face para me ultrajar, rebelam-se todos contra mim.” (Jó 16:10)

E o que é oferecer a face?

Significa confiar no Senhor e não se ficar nutrindo ódio contra alguém que no passado nos humilhou. Deixe nas mãos do Eterno, para por fim ao ciclo da violência.

Claro, devemos assim praticá-la, mas nunca ao extremo, pois a Bíblia sempre ensinou que não é bom cair em extremos (vide Ec. 7:16)

A mesma Bíblia nos ensina a legítima defesa, o se levantar contra a injustiça e o preservar tanto a própria vida quanto a vida do inocente.

Mas, defender-se ou buscar a justiça não é a mesma coisa que tramar a vingança e a humilhação de alguém que errou para conosco.

 

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Sou teólogo, monoteísta e um apaixonado pelas Sagradas Escrituras há mais de trinta anos. Como psicanalista, amo desvendar os mistérios da psique humana. O amor por essas duas coisas me motiva a buscar ver na Bíblia Hebraica o caminho para a felicidade e um relacionamento com o Altíssimo.

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