Entenda os Manuscritos da Bíblia Hebraica – Parte I

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Farei uma promessa ousada, mas é possível: Em troca de 10 minutos do seu tempo, ensinarei (quase) tudo o que você precisa saber para ser um erudito no tema dos manuscritos da Bíblia Hebraica, em dois artigos concisos e diretos.

Todas as cópias que temos dos manuscritos bíblicos são classificadas em famílias. As mais importantes dessas famílias são as abaixo indicadas, com as datas aproximadas de composição:

Texto Massorético (séculos 3 a.e.c a 11 d.e.c.)
Produzido por escribas de Tiberíades, no norte de Israel. É o texto mais importante da Bíblia Hebraica, e tido como o texto canônico aceito pelo Judaísmo clássico. É assim chamado porque contém um registro da massorá (tradição) de como o texto seria lido. É importante porque originalmente o hebraico não era escrito com vogais ou pontuação.

Ponto forte: É o melhor texto para ser estudado no nível das palavras, por ser em hebraico. Há trocadilhos, estruturas poéticas e jogos de palavras que se perdem noutras línguas.

Ponto fraco: Os escribas massoretas intencionalmente alteraram o texto em alguns pontos, por vários motivos teológicos. Apesar disso ser bem documentado, não é algo positivo do nosso ponto de vista.

Septuaginta (séculos 3 a.e.c a 1 d.e.c)
No século 3 a.e..c, o rei Ptolomeu II do Egito solicitou a setenta e dois escribas judeus que traduzissem a Torá (Pentateuco) para o grego koinê, que era a língua internacional da época. Daí o nome Septuaginta (derivado de 70). Posteriormente, os demais livros da Bíblia Hebraica foram gradualmente sendo traduzidos. Durante muitos séculos, foi a tradução predileta do Cristianismo. Foi alvo de muitas críticas por parte de sábios judeus, que acusavam seus tradutores de falsificação. Essas acusações, porém, já foram hoje desmentidas desde a descoberta dos manuscritos do mar morto.

Ponto forte: Frequentemente reflete um texto anterior até mesmo ao massorético. Como o grego koinê era uma língua mais complexa que o hebraico antigo, a forma final da Septuaginta foi consolidada muito antes da massorética. Além disso, ajuda a entender como o texto hebraico era compreendido nos tempos antigos.

Ponto fraco: Como toda tradução, perde em muito para o Texto Massorético quando se faz estudo no nível das palavras. Tudo aquilo que é ponto forte no Texto Massorético é desvantagem na Septuaginta. Mesmo os Targumim aramaicos são muitas vezes superiores, pelo fato do grego não ser uma língua semita.

Pentateuco Samaritano (século 2 a.e.c a 12 d.e.c.)
O Pentateuco Samaritano se desenvolveu em três etapas. A primeira nos tempos de Esdras e Neemias, quando dos desentendimentos entre judeus e samaritanos. A segunda, uma revisão nos tempos da dinastia dos hasmoneus, durante os quais os samaritanos herdaram vários aspectos do Judaísmo. E a terceira, com a vocalização do texto por influência do trabalho dos massoretas.

Ponto forte: Em vários trechos, sua leitura é parecida com a da Septuaginta, o que ajuda na compreensão do sentido original do texto quando a Septuaginta e o Texto Massorético divergem. Por ser em hebraico, partilha das vantagens do Texto Massorético quando estudado no nível da palavra.

Ponto fraco: É o texto antigo mais alterado de todos, com dezenas de modificações que “corrigem” a teologia judaica, inclusive com a inserção do monte Guerizim nos mandamentos do Decálogo, pois os samaritanos o consideram sagrado, rejeitando o monte Moriá dos judeus. Sabe-se hoje que tais trechos são posteriores, pois não são atestadas por nenhuma outra cópia antiga. Além disso, contém apenas os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, que compõem o cânon samaritano.

Manuscritos do Mar Morto (séculos ??? a 1 a.e.c)
Descobertos no século passado por beduínos, uma biblioteca de manuscritos em hebraico foi encontrada na região de Qumran, às margens do Mar Morto em Israel. Os manuscritos estavam guardados em vasos de barro, e datam de mais de dois mil anos. Dentre eles, vários manuscritos da Bíblia Hebraica, às vezes até com mais de uma variação. Até hoje, não temos todos os manuscritos catalogados ou mesmo traduzidos.

Ponto forte: Todos os outros manuscritos que temos hoje são cópias feitas na Idade Média. Estes, portanto, são os mais antigos . Às vezes, dois manuscritos diferentes existem para um mesmo trecho bíblico, confirmando que na época do Segundo Templo não havia unanimidade entre os escribas e legitimando a Septuaginta e outras variantes antigas.

Ponto fraco: Em virtude da idade, estão extremamente fragmentados e até rasurados. A escrita também não é das mais claras, dificultando sua compreensão. Por muitos serem anteriores à Revolta dos Macabeus, não contêm livros mais recentes, como Daniel e Ester. Para vários livros, apenas pequenos trechos sobreviveram e nem sempre são legíveis. Sendo assim, são insuficientes para produzir uma tradução inteira.

No próximo artigo, falaremos sobre a Peshitta Aramaica, a Vulgata e os Targumim.

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