Maldição Hereditária Existe?

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Maldição familiar existe mesmo na Bíblia Hebraica?
Introdução

Helena (nome fictício) é uma jovem que tem muita dificuldade com o namorado alcoólatra. Olhando para a família, sua mãe teve o mesmo problema. E sua avó idem. Será que Helena é vítima da tão temida maldição hereditária? Quem nunca se indagou esse tipo de coisa?

A teologia da maldição hereditária foi criada por pentecostais no século passado. Mas será que ela encontra fundamento bíblico?

 

A Distorção do Texto Bíblico

No que tange a Bíblia Hebraica – que é o nosso objeto de estudo – ela se apóia em duas passagens bíblicas, que abaixo indico:

“Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Sl. 51:5)

Muitos afirmam, a partir dessa passagem, que a negatividade do pecado é contagiosa, de geração em geração. Mas, basta ler o salmo para compreender que isso não faz o menor sentido. Primeiro, porque os salmos são textos poéticos e não tratados teológicos.

Segundo, porque o objetivo do salmo é o arrependimento do salmista: “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares.” (Sl. 51:4)

Ele usa de uma hipérbole para dizer que ele é um pecador desde que se entende por gente, que não houve momento que ele consiga se lembrar em sua vida em que não tenha tido atitudes pecaminosas. Isso tem a ver com a grande culpa que ele sentia pela sua transgressão.

O segundo texto é: “Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque Eu, o ETERNO teu Senhor, sou Senhor zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.” (Ex. 20:5)

Para entender essa passagem, é preciso ter em mente que o Senhor estava falando com Israel enquanto povo. Com o povo, o Senhor lidava coletivamente. A passagem se refere ao fato de que se Israel fosse idólatra, geração após geração, em algum momento a punição chegaria, como de fato ocorreu. A chave para esse versículo é: “Daqueles que me odeiam.” Se você está lendo este artigo, dificilmente você odeia o Senhor.

Como se pode perceber, a teologia da maldição hereditária não tem qualquer fundamento concreto sobre a Bíblia Hebraica. Mas, mais do que isso, a Bíblia Hebraica é diametralmente oposta a esse tipo de crença.

 

A Bíblia Hebraica Nega a Maldição Familiar

Primeiro, é preciso lembrar que para a Bíblia Hebraica, maldição está sempre vinculado à desobediência: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém.” (Dt. 27:26 – vide também o restante do capítulo para mais informações.)

É também preciso lembrar que só existe maldição quanto à desobediência quando não há arrependimento: “Mas se o ímpio se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e proceder com retidão e justiça, certamente viverá; não morrerá. De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele; pela justiça que praticou viverá.” (Ez. 18:21,22)

Tendo isso em mente, observe as passagens abaixo:

“Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado.” (Dt. 24:16)

“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” (Ez. 18:20)

Em outras palavras, a Bíblia é clara: Maldição está ligado à iniquidade; Ninguém carrega a iniquidade de um terceiro. Logo, não existe geracionalidade do pecado, nem maldição hereditária.

 

O Verdadeiro Problema
Mas, por que então é comum observar que pessoas de uma mesma família passem por um mesmo problema?

A resposta é mais simples do que parece: Todos nós acabamos repetindo padrões que nos são familiares. Nós crescemos acostumados com algumas coisas, e acabamos buscando – conscientemente ou não – situações semelhantes.

Helena, a jovem de nosso exemplo, pode ter associado afeto masculino com embriaguez. Ou, pode nutrir uma fantasia de salvar o pai, projetando-a sobre um marido. E, por causa disso, acaba se apaixonando por alcoólatras, mesmo sem perceber. E existem muitas outras possibilidades.

Nesses casos, a pessoa consegue entender essas questões e libertar-se delas através de um trabalho com um profissional de saúde mental. É claro que a oração e o apoio espiritual ajudam muito, mas a questão não é de ordem espiritual. E é possível mudar esse padrão psicológico. Muitas pessoas o fazem, como resultado de um trabalho com profissional sério.

E é justamente por saber que nossa tendência é repetir padrões que a Bíblia Hebraica nos diz, de forma brilhante: “Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele.” (Pv. 22:6)

Por isso, temos que ter muito cuidado quanto a que tipo de ambiente expomos nossos filhos, e a que exemplos de conduta eles verão em nós. Para o bem ou para o mal, nós somos os exemplos que eles têm, e que carregarão em suas vidas.

Para maiores informações sobre maldição em geral, clique aqui.

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Sou teólogo, judeu e um apaixonado pelas Sagradas Escrituras há mais de trinta anos. Como psicanalista, amo desvendar os mistérios da psique humana. O amor por essas duas coisas me motiva a buscar ver na Bíblia Hebraica o caminho para a felicidade e um relacionamento com o Altíssimo.

5 COMENTÁRIOS

  1. Boa Reflexão, na verdade o pai e a mãe são espelhos para os filhos. O que eles fizerem, fica como exemplo, seja qual for o feito.

  2. “Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”. Êxodo 20:5-6.

    eu amo e guardo os mandamentos do senhor e intercedo pelos meus filhos .

  3. Nossa, eu me lembro que qdo evangélica fiz muitas orações de renuncias,para quebrar a maldição hereditária em minha familia, cada coisa assombrosa..Nem gosto de lembrar…Graças ao Eterno, me livrou de todos esses enganos.Só tenho a agradecer

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